Questão 13: Dos nomes divinos.
Depois de considerado o que
pertence ao conhecimento divino, devemos tratar dos nomes divinos, pois
nomeamos as coisas conforme as conhecemos.
E,
nesta questão, discutem-se doze artigos:
Art.
12 — Se podemos formar sobre Deus proposições afirmativas.
(I Sent., dist. IV, q. 2, a. 1; dist. XXII, a. 2, ad
1; I Cont. Gent.,
cap. XXXVI; De Pot., q. 7, a. 5, ad 2).
O
duodécimo discute-se assim. — Parece que não podemos formar sobre Deus
proposições afirmativas.
1.
— Pois, diz Dionísio, que as negações, sobre Deus, são verdadeiras, mas, as
afirmações são inconsistentes.
2.
Demais. — Boécio diz, que a forma simples não pode ser sujeito. Ora, Deus é
forma simples, por excelência, como já se demonstrou. Logo, não pode ser
sujeito. Ora, todo o ser sobre o qual podemos
formar uma proposição afirmativa é tomado como
sujeito. Logo, não podemos formar sobre Deus proposições afirmativas.
3.
Demais. — Todo o intelecto, que compreende as coisas diferentemente do que elas
são, é falso. Ora, Deus tem o ser sem nenhuma composição, como já se provou. E,
como todo intelecto, que afirmar alguma coisa, a intelige com composição,
resulta que não podemos, verdadeiramente, formar sobre Deus proposições
afirmativas.
Mas,
em contrário, a fé não contém nada de falso. Ora, ela encerra certas
proposições afirmativas, como: Deus é trino e uno, é onipotente. Logo, podemos
formar, verdadeiramente, a respeito de Deus proposições afirmativas.
Pois, é manifesto que — homem e
branco — têm idêntico sujeito, mas representam noções diferentes; pois, uma é a
noção de homem e outra, a de branco. E o mesmo se dá quando digo — o homem é um
animal racional; pois, o homem é, em si mesmo e verdadeiramente, animal
racional; porque o mesmo é o suposto da natureza sensível, em virtude da qual é
chamado animal, e da natureza racional, em virtude da qual é chamado homem.
Por onde, também neste caso, o predicado e o sujeito têm idêntico suposto mas, noções diversas. E ainda, isto mesmo se dá, de certo modo, com as proposições nas quais um sujeito é predicado de si mesmo; pois, então àquilo que a inteligência toma como sujeito ela o faz desempenhar o papel de suposto; e ao que toma como predicado dá a natureza de forma do suposto; e é isto que leva os lógicos a dizerem que os predicados são tomados formalmente e os sujeitos, materialmente. Ora, a esta diversidade racional corresponde a pluralidade de predicado e de sujeito; ao passo que a identidade real o intelecto a exprime pela composição mesma.
Ora, Deus, em si mesmo considerado, é absolutamente
uno e simples; contudo, o nosso intelecto o conhece por meio de conceitos
diversos, já que não pode vê-lo tal como em si mesmo é. Mas, embora o intelija
sob noções diversas, sabe, contudo que a todas as suas noções corresponde um
mesmo ser simples. Por onde, essa pluralidade racional ele o representa pela
pluralidade de predicado e sujeito; e a unidade, por meio da composição.
DONDE
A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Dionísio diz, que as afirmações sobre Deus
são inconsistentes; ou inconvenientes, segundo outra tradução, porque nenhum
nome lhe convém quanto ao modo de significar, como já dissemos.
RESPOSTA
À SEGUNDA. —
O nosso intelecto não pode compreender as formas simples subsistentes, tais
como elas em si mesmas são; mas, as apreende ao modo dos compostos, nos quais
há um sujeito e o que a esse sujeito é inerente. Por onde, apreende a forma simples
como se fosse sujeito e lhe atribui alguma coisa.
RESPOSTA À TERCEIRA. — A proposição — o intelecto que compreende as coisas diferentemente do que elas são é falso — tem duplo sentido, porque o advérbio diferentemente pode determinar o verbo compreende, em relação ao objeto compreendido, ou ao sujeito que compreende. No primeiro caso, a proposição é verdadeira e o seu sentido é: qualquer intelecto que compreende uma coisa diferentemente do que ela é, é falso.
Ora, isto não se dá no caso vertente, porque o nosso intelecto, quando
forma uma proposição sobre Deus, não diz que ele é composto, mas, simples. No
segundo caso, porém, a proposição é falsa; pois, então, o modo pelo qual o
intelecto compreende é diferente do pelo qual a coisa existe.
Pois,
é manifesto que o nosso intelecto intelige imaterialmente as coisas materiais
que lhe são inferiores; não que as intelija como imateriais, mas, porque tem um
modo imaterial de as inteligir. E, semelhantemente, quando intelige os seres
simples, que lhe são superiores, intelige-os ao seu modo, como se fossem
compostos, mas, sem pensar que sejam realmente compostos. E assim, o nosso
intelecto não é falso, quando afirma em Deus alguma composição.
Fonte: Suma Teológica de
São Tomás de Aquino
Você terá a oportunidade de
ler mais sobre esta obra todos os DOMINGOS, TERÇAS e QUINTAS-FEIRAS, quando
vamos postar mais um artigo desta obra prima de São Tomás de Aquino. Te
esperamos no próximo post.
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