Questão 13: Dos nomes divinos.
Depois
de considerado o que pertence ao conhecimento divino, devemos tratar dos nomes
divinos, pois nomeamos as coisas conforme as conhecemos.
E,
nesta questão, discutem-se doze artigos:
Art. 9 —
Se o nome de Deus é comunicável.
O nono discute-se assim. — Parece que o nome de Deus é
comunicável.
1. — Pois, a qualquer ser a que se comunica o que é
significado pelo nome, comunica-se também o próprio nome. Ora, o nome de Deus,
como já se disse, significa a natureza divina, comunicável aos demais seres,
conforme aquilo da Escritura (2 Pd 1, 4): Comunicou-nos as mui grandes e
preciosas graças que tinha prometido, para que, por elas, sejais feitos
participantes da natureza divina. Logo, o nome de Deus é comunicável.
2. Demais. — Só os nomes próprios não são comunicáveis.
Ora, o nome de Deus não é próprio, mas, apelativo, pois, como é claro, tem
plural, conforme a Escritura (Sl 81, 6): Eu disse: Sois deuses. Logo, o nome de
Deus é comunicável.
3. Demais. — O nome de Deus tem a sua origem na operação,
como já se disse. Ora, outros nomes que impomos a Deus, originados das suas
operações ou dos seus feitos, como bom, sábio, e outros, são comunicáveis.
Logo, o nome de Deus é comunicável.
Mas, em contrário, diz a Escritura (Sb 14, 21):
Deram às pedras e ao pau um nome incomunicável; referindo-se ao nome de
deidade. Logo, o nome de Deus é incomunicável.
SOLUÇÃO. — Um nome pode ser
comunicável de dois modos: propriamente e por semelhança. É propriamente
comunicável o nome que se aplica a muitos seres na sua significação total; e,
por semelhança, quando é imposto só em relação a uma parte da sua significação.
Assim, o nome de leão é, propriamente, comunicado a todos os seres que têm a
natureza que tal nome exprime; é, porém, comunicável, por semelhança, aos seres
que participam algo de leonino, como, a audácia ou a fortaleza, e são por isso,
metaforicamente, chamados leões.
Ora, para sabermos que nomes são propriamente comunicáveis, devemos considerar que toda forma existente num sujeito singular, que a individua, é comum a muitos seres, realmente ou, pelo menos, racionalmente. Assim, a natureza humana é comum a muitos seres, real e racionalmente; ao passo que a natureza do sol não o é real, mas só racionalmente, pois pode ser entendida como existente em muitos sujeitos; e isto porque o intelecto intelige a natureza de uma espécie por abstração do singular. Por onde, existir num sujeito singular ou em vários é um fato estranho ao conceito que fazemos da natureza da espécie, e, por isso, o conceito da natureza específica ficando salvo, pode ser inteligido como existente em vários seres.
O singular pelo contrário, por isso mesmo que o é, é
separado de tudo o mais, e, por isso, todo nome imposto para significar o
singular é incomunicável, real e racionalmente. Pois, a pluralidade de um determinado
indivíduo não pode cair sob a nossa apreensão. Por onde, nenhum nome que
signifique um determinado indivíduo é comunicável propriamente, a muitos
outros, mas, só, por semelhança; assim, um indivíduo pode ser denominado
metaforicamente Aquiles ou ter alguma das propriedades de Aquiles, p. ex., a
fortaleza.
As formas, porém, que não se individuam por meio de
nenhum suposto estranho, mas, por si mesmas, porque são formas subsistentes, se
as consideramos em si mesmas, não podem comunicar-se nem real nem
racionalmente, mas só, talvez, por semelhança, como já dissemos tratando dos indivíduos.
Mas, como não podemos inteligir as formas simples por si subsistentes, tais
quais elas são em si mesmas, mas as inteligimos como se fossem seres compostos,
que têm as formas realizadas na matéria, por isso, como já dissemos,
impomos-lhes nomes concretos, que designam a natureza existente em algum
suposto. Por onde, no que diz respeito ao conteúdo dos nomes, o caso dos nomes
que impomos para significarem as naturezas das coisas compostas é o mesmo que o
dos que impomos para significarem as naturezas simples subsistentes.
Portanto, sendo o nome de Deus imposto para significar a natureza divina, como já dissemos, e não sendo esta multiplicável, como ficou demonstrado, resulta, que o nome de Deus é, certo, realmente incomunicável, mas pode ser comunicável conforme a opinião de alguém; assim, como o nome sol é comunicável, na opinião dos que admitem vários sois. E, neste sentido, diz a Escritura (Gl 4, 8): Servíeis aos que por natureza não são deuses; o que comenta a Glosa: Não são deuses por natureza, mas na opinião dos homens.
Contudo, se o nome de Deus não é comunicável na sua significação total, o é por
algo que nele existe, por uma certa semelhança; e, neste sentido, chamamos
deuses aos que participam, por semelhança, algo de divino, conforme aquilo da
Escritura (Sl 81, 6): Eu disse: sois deuses. Se, porém, existisse algum nome
imposto para significar Deus, não em sua natureza, mas como sujeito, enquanto
que ele é tal ser, esse nome seria, de qualquer modo, incomunicável, como se
dá, talvez, com o tetragrama entre os Hebreus; e o mesmo se daria se alguém
impusesse ao sol um nome que designasse precisamente esse indivíduo.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A natureza divina
não é comunicável senão pela participação da semelhança.
RESPOSTA À SEGUNDA. — O nome de Deus é
apelativo, e não próprio, porque significa a natureza divina como se ela
existisse num sujeito; embora Deus mesmo, na realidade, não seja universal nem
particular. Pois, os nomes não seguem o modo de ser real das coisas, mas o que
existe em o nosso conhecimento. E, contudo, na verdade das coisas, o nome de
Deus é incomunicável, como já dissemos, referindo-nos ao nome do sol.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Os nomes —
bom, sábio e semelhantes, são, certo, impostos como derivados das perfeições
que procedem de Deus para as criaturas. São, porém, aplicados para significar,
não a natureza divina, mas, as perfeições mesmas, absolutamente falando; e,
portanto, mesmo na verdade das coisas, são comunicáveis a muitos. Mas, o nome
de Deus é imposto como tendo a sua origem na operação própria a Deus — e que
nós experimentamos continuamente — para significarem a natureza divina.
Fonte: Suma Teológica de
São Tomás de Aquino
Você terá a oportunidade de ler mais sobre
esta obra todos os DOMINGOS, TERÇAS e QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais
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post.
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