Questão 14: Da ciência de Deus.
Depois de termos considerado o que pertence à substância
divina, resta considerarmos o que lhe pertence à operação. E como há duas
espécies de operações, uma imanente no agente, e outra, que produz um efeito
exterior, trataremos, primeiro, da ciência e da vontade, pois, o ato de
inteligir é imanente no sujeito que intelige e o de querer, no sujeito que
quer. E, em segundo lugar, trataremos do poder divino considerado como
princípio de operação divina que produz um efeito exterior.
Como, porém, inteligir é viver, depois de considerarmos a
divina essência, trataremos da vida divina. — E, como a ciência diz respeito à
verdade, trataremos da verdade e da falsidade. — Enfim, como todo objeto
conhecido está no sujeito que conhece; e como as razões das coisas, enquanto
existentes em Deus, que as conhece, chamam-se ideias, quando tratarmos da
ciência também, conjuntamente, trataremos das ideias.
Ora, sobre a ciência discutem-se dezesseis artigos:
Art. 2 — Se Deus se conhece a si mesmo.
(I Cont. Gent., cap. XLVII; De Verit., q. 2, a. 2; Comp.
Theol., cap. XXX; XII Metaph., lect. XI; De Causis, lect. XIII).
O segundo discute-se assim. parece que Deus não se conhece
a si mesmo.
1. — Pois, como diz o livro De Causis: todo ser dotado de
conhecimento, que conhece a sua própria essência, volta-se para ela de um modo
perfeito. Ora, Deus não sai da sua própria essência, nem se move de modo nenhum
e portanto, não lhe cabe voltar-se para a sua essência. Logo, não a conhece.
2. Demais. — Conhecer é de certo modo sofrer e ser movido,
diz Aristóteles; a ciência é, por sua vez, um assimilar-se do espírito com a
coisa conhecida; e por fim, o conhecido é a perfeição de quem conhece. Ora,
nada se move, sofre ou se aperfeiçoa por si mesmo, nem é semelhante a si mesmo,
como diz Hilário. Logo, Deus não se conhece a si mesmo.
3. Demais. — Principalmente pelo intelecto é que nós somos
semelhantes a Deus, porque, por ele é que fomos feitos à imagem de Deus, como
diz Agostinho. Ora, o nosso intelecto não se compreende a si mesmo senão
conhecendo outras coisas, no dizer de Aristóteles. Logo, Deus não se conhece a
si mesmo senão, talvez, conhecendo outros seres.
Mas, em contrário, diz a Escritura (1 Cor 2, 11): As
coisas que são de Deus, ninguém as conhece, senão o espírito de Deus.
SOLUÇÃO. — Deus se conhece a si
mesmo e por meio de si mesmo. Para evidenciá-lo devemos saber que, nas
operações que produzem um efeito exterior, o objeto desta, que lhe é assinalado
como termo, é algo de exterior ao agente; mas, nas operações imanentes ao
sujeito mesmo que opera, o objeto que lhe é assinalado como termo está no
próprio sujeito e, por isto, é que a operação se atualiza. Por isso diz o
Filósofo, que o sensível em ato é idêntico ao sentido em ato, e o inteligível
em ato, ao intelecto em ato.
Pois, sentimos ou inteligimos alguma coisa em ato, porque o nosso intelecto ou o nosso sentido é informado pela espécie do sensível ou do inteligível. E, então, tanto o sentido como o intelecto diferem do sensível ou do inteligível, porque um e outro são potenciais. Ora, não havendo em Deus nenhuma potencialidade, mas sendo ato puro, necessariamente nele há de o intelecto ser idêntico, sob todos os pontos de vista, ao inteligível.
Por onde,
nem carece de espécie inteligível, como o nosso intelecto quando intelige em
potência; nem a espécie inteligível difere da substância do intelecto divino,
como se dá com a nossa inteligência quando intelige em ato; mas, a espécie
inteligível mesma é o próprio intelecto divino e, portanto, conhece-se a si
mesmo por meio de si mesmo.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Voltar-se para a sua
própria essência não é senão o subsistir da coisa, em si mesma. Pois, a forma,
aperfeiçoando a matéria a que dá o ser, como que se difunde, de certo modo,
nela; mas, se tem o ser em si mesma, para si mesma se volta. Por onde, as
potências cognoscitivas não subsistentes, mas que são atos de certos órgãos,
não se conhecem a si mesmas, como cada um dos sentidos bem o demonstra.
Pelo contrário, as potências cognoscitivas, por si mesmas
subsistentes, a si mesmas se conhecem. E, por isso, diz o livro De causis, que
todo ser dotado de conhecimento, que conhece a sua própria essência, volta-se
para ela. Ora, ser subsistente por si mesmo convém, por excelência, a Deus. Por
onde, conforme a este modo de falar, ele, mais que nenhum outro ser, volta-se
para a sua própria essência e a si mesmo se conhece.
RESPOSTA À SEGUNDA. — As expressões — passividade e mutação — tomam-se equivocamente, no sentido em que consideramos o conhecimento como uma espécie de passividade e mutação, segundo diz Aristóteles. Pois, inteligir não é o movimento, ato do imperfeito, que procede de um sujeito e é recebido por outro; mas, o movimento, ato do perfeito, existente no próprio agente. Semelhantemente, quando dizemos que o intelecto é aperfeiçoado pelo inteligível ou com ele se assimila, entendemos que isso se dá com o intelecto que é, às vezes, potencial.
Pois, por ser tal, é que difere do inteligível, com o qual se assimila, por meio da espécie inteligível — semelhança do objeto inteligido — que aperfeiçoa o intelecto, como o ato, a potência. Ora, o intelecto divino, que não é, de nenhum modo, potencial, não se aperfeiçoa pelo inteligível, nem com ele se assimila, mas é a sua própria perfeição e o seu próprio inteligível.
RESPOSTA
À TERCEIRA. —
A matéria prima, que existe em potência, não tem o seu ser natural, senão
quando atualizada pela forma. Ora, o nosso intelecto possível comporta-se, na
ordem do inteligível, como a matéria prima, na ordem dos seres naturais; pois,
é potencial em relação aos inteligíveis, como a matéria prima em relação aos
seres naturais.
Por
onde, o nosso intelecto possível não pode exercer a operação inteligível, senão
aperfeiçoado pela espécie inteligível de algum objeto. E, como se intelige a si
mesmo, por meio da espécie inteligível, assim também, do mesmo modo intelige as
demais coisas. Pois, é manifesto que, conhecendo o inteligível, intelige o seu
próprio ato de conhecer e, por meio do ato, conhece a potência intelectiva.
Ora, Deus é ato puro, tanto na ordem da existência como na dos inteligíveis; e,
portanto conhece-se a si mesmo por meio de si mesmo.
Fonte: Suma Teológica de São
Tomás de Aquino
Você terá a oportunidade de ler mais sobre esta
obra todos os DOMINGOS, TERÇAS e QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um
artigo desta obra prima de São Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
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