Questão 12: Como Deus é conhecido por nós.
Tendo, no que fica dito, tratado de como Deus é, em si mesmo, resta tratarmos como é, em relação ao nosso conhecimento, e é, como é conhecido pelas criaturas.
E nesta questão, discutem-se treze artigos:
Art. 12 — Se pela razão natural podemos conhecer a Deus nesta vida.
O
duodécimo discute-se assim. — Parece que pela razão natural não podemos
conhecer a Deus nesta vida.
1. — Pois, diz Boécio, que a razão não
apreende uma forma simples. Ora, Deus é a forma simples por excelência, como já
se demonstrou. Logo, a razão natural não pode chegar ao conhecimento dele.
2.
Demais. — A alma nada intelige pela razão natural sem fantasma, como diz
Aristóteles. Ora, de Deus, que é incorpóreo, não podemos ter em nós um
fantasma. Logo, não podemos dele ter conhecimento natural.
3.
Demais. — O conhecimento da razão natural é comum aos bons e aos maus, como
lhes é comum a natureza. Ora, o conhecimento de Deus é próprio só dos bons;
pois, diz Agostinho, que a fraca penetração do intelecto humano não pode chegar
a uma luz tão excelente sem ser purificada pela santidade da fé. Logo, Deus não
pode ser conhecido pela razão natural.
Mas,
em contrário, o Apóstolo (Rm 1, 19): O que se pode conhecer de Deus lhes
é manifesto a eles, i. é., Deus é conhecível pela razão natural.
SOLUÇÃO.
— O
nosso conhecimento natural tem o seu princípio nos sentidos. Por onde, podemos
entender até onde pudermos chegar mediante as sensíveis. Ora, mediante eles, o
nosso intelecto não pode chegar a ver a divina essência. Pois, as criaturas
sensíveis, sendo efeitos de Deus, não adequadas à virtude da causa, partindo do
conhecimento sensível, não podem chegar a conhecer a virtude total de Deus; e
por consequência, não lhe podem ver a essência.
Mas,
como os efeitos são dependentes da causa, podemos por eles chegar ao
conhecimento da existência de Deus e dos atributos que lhe convém necessariamente,
como causa primeira de todos os seres, que sobre passa todos os seus efeitos. E
assim conhecemos a sua relação com as criaturas de todas as quais é causa; e
como estas diferem dele por que não é nenhuma das que criou; e enfim, sabemos
que o que dele removemos não é por deficiência sua, mas, por sobre-excelência.
DONDE
A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A razão não pode atingir uma forma simples
de modo a lhe conhecer a quididade; pode, contudo, conhecer-lhe a existência.
RESPOSTA
À SEGUNDA. —
Deus é conhecido pelos fantasmas que, dos seus efeitos, apreende o conhecimento
natural.
RESPOSTA À TERCEIRA. — O conhecimento da essência de Deus, sendo efeito da graça, só os
bons o podem ter; mas, o conhecimento de Deus pela razão natural podem-no ter
tanto os bons como os maus. Por isso, diz Agostinho: Não aprovo o que disse
nesta oração: Deus, que só aos puros permitiste saberem a verdade — pois
poderiam responder que muitos, embora não puros conhecem muitas verdades, i. é,
pela razão natural.
Fonte: Suma Teológica de São Tomás de Aquino
Você terá a oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os DOMINGOS, TERÇAS e QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta obra prima de São Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
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