Questão 12: Como Deus é conhecido por
nós.
Tendo,
no que fica dito, tratado de como Deus é, em si mesmo, resta tratarmos como é,
em relação ao nosso conhecimento, e é, como é conhecido pelas criaturas.
E nesta
questão, discutem-se treze artigos:
Art. 9 —
Se os que vêem a divina essência nela vêem as coisas por meio de certas
imagens.
O
nono discute-se assim. — Parece que os que vêem a divina essência nela vêem as
coisas por meio de certas imagens.
1. —
Pois, todo conhecimento se dá por uma assimilação entre o conhecente e o conhecido.
Assim, se o intelecto, em ato de conhecimento, se torna, no objeto inteligido,
em ato de inteligibilidade, é por ser informado pela semelhança do que deve
conhecer; do mesmo modo que, se a visão em ato se torna no sensível em ato, é
porque a pupila é informada pela semelhança da cor. Por onde, o intelecto que
vê a Deus em essência, para ver nele algumas criaturas há de ser informado
pelas semelhanças delas.
2.
Demais. — Conservamos na memória as coisas que vimos primeiro. Ora, São Paulo,
vendo num rapto a essência de Deus, como diz Agostinho, recordava-se, depois de
acabada a visão, de muitas coisas que nela vira; e, por isso, ele mesmo diz (2
Cor 12, 4) que ouviu lá palavras secretas que não é permitido a um homem
referir. Logo, é forçoso admitir que no seu intelecto permaneceram certas
semelhanças das coisas de que se recordava. E, pela mesma razão, quando
contemplava presencialmente a essência de Deus, tinha certas semelhanças ou
espécies das coisas que nela via.
Mas, em
contrário, pela mesma espécie vemos o espelho e as coisas que ele reflete.
Ora, todas as coisas são vistas em Deus, que é um como espelho inteligível.
Logo, se Deus mesmo não é visto por meio de nenhuma semelhança, mas pela sua
essência, também as coisas nela vistas não são vistas por nenhumas semelhanças
ou espécies.
SOLUÇÃO.
— Os que contemplam a Deus em essência não vêem por
nenhumas espécies as coisas que nela vêem, mas, por essa essência divina mesma,
que lhes está unida ao intelecto. Assim, conhecemos uma coisa quando temos uma
imagem dela, o que de dois modos se pode dar.
Pois,
como duas coisas iguais a uma terceira são iguais entre si; de dois modos a
potência cognoscitiva pode assimilar-se a um objeto cognoscível. Ou em si,
quando é diretamente informada pela imagem do objeto, e então o conhece em si
mesmo; ou quando informada pela espécie de outro objeto semelhante ao primeiro,
e então este não é conhecido em si mesmo, mas, por meio do que lhe é
semelhante.
Assim,
um é o conhecimento que temos de um homem, em si mesmo, e outro, o que dele
temos por meio de uma imagem. Por onde, conhecer as coisas pelas semelhanças
delas em nós existentes é conhecê-las em si mesmas ou nas suas naturezas
próprias; mas, conhecê-las por meio das imagens delas preexistentes em Deus, é
vê-las em Deus. E estes dois modos de conhecimento diferem.
Por
isso, o conhecimento que têm das coisas os que as vêem em Deus mesmo, cuja
essência contemplam, não é um conhecimento mediante outras imagens, mas
mediante a só essência divina presente ao intelecto, pela qual também Deus é
visto.
DONDE
A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O intelecto criado de quem
vê a Deus se assimila às coisas vistas enquanto ele está unido com a divina
essência, na qual preexistem as imagens de todas as coisas.
RESPOSTA
À SEGUNDA. — Há certas potências cognoscitivas, que, das espécies
primeiramente concebidas, podem formar outras; assim, a imaginação forma, das
espécies pré-concebidas de monte e de ouro, a espécie de monte áureo; e o
intelecto, das espécies pré-concebidas de gênero e de diferença, a diferença
específica. E, igualmente, da semelhança de imagem podemos formar, em nós, a
semelhança do ser ao qual ela pertence.
E
assim, Paulo, ou qualquer outro, vendo a Deus, pela visão mesma da essência
divina, pode formar em si semelhanças das coisas vistas na divina essência; e
essas permaneceram em Paulo mesmo depois que deixou de contemplar a essência de
Deus. Esta visão, porém, pela qual são vistas as coisas, por meio de tais
espécies assim concebidas, é diferente da visão pela qual as coisas são vistas
em Deus.
Fonte: Suma Teológica de São Tomás de Aquino
Você terá a
oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os DOMINGOS, TERÇAS e
QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta obra prima de São
Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
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