Questão 13: Dos nomes divinos.
Depois de considerado o que pertence ao conhecimento
divino, devemos tratar dos nomes divinos, pois nomeamos as coisas conforme as
conhecemos.
E, nesta questão, discutem-se doze artigos:
Art. 3 —
Se algum nome se predica de Deus propriamente.
O terceiro discute-se assim. — Parece que nenhum nome se
predica de Deus propriamente.
1. — Pois, todos os nomes que aplicamos a Deus são
tirados das criaturas, como já se disse. Ora, tais nomes se aplicam a Deus
metaforicamente; assim, quando dizemos que Deus é pedra ou leão ou algo de
semelhante. Logo, os nomes que atribuímos a Deus se aplicam metaforicamente.
2. Demais. — Um nome que é removido de um ser, mais
verdadeiramente do que é dele predicado, não se lhe aplica propriamente. Ora,
todos os nomes como — bom, sábio, e semelhantes — removem-se de Deus mais
verdadeiramente do que dele se predicam, como se lê claramente em Dionísio.
Logo, nenhum desses nomes se predica propriamente de Deus.
3. Demais. — Sendo Deus incorpóreo, os nomes de corpos
não se lhe atribuem senão metaforicamente. Ora, todos os nomes em questão implicam
certas condições corpóreas, como o tempo, a composição e outras semelhantes.
Logo, todos esses nomes se atribuem a Deus metaforicamente.
Mas, em contrário, diz Ambrósio: Há certos nomes
que indicam evidentemente uma propriedade divina. Outros que exprimem, com
clara verdade, a majestade divina; Outros por fim que se aplicam a Deus por
metáfora e semelhança. Logo, todos esses nomes se predicam de Deus
metaforicamente.
SOLUÇÃO. — Como já dissemos, conhecemos a Deus pelas perfeições que dele procedem para as criaturas, perfeições que nele existem de modo mais eminente que nestas. Ora, o nosso intelecto as apreende conforme o modo pelo qual elas existem nas criaturas e, como as apreende, assim as exprime por nomes.
Ora, nos nomes que atribuímos a
Deus há dois elementos a se considerarem, a saber: as perfeições mesmas que
eles significam, como bondade, vida e outras; e o modo de significar.
Quanto ao que significam tais nomes, convém a Deus
propriamente e mais que às criaturas, dele se predicam primariamente. Quanto ao
modo de significar, não se lhe atribuem propriamente, pois, esse modo é próprio
das criaturas.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Alguns nomes
significam as perfeições procedentes de Deus para as coisas criadas, de maneira
que o modo imperfeito mesmo, pelo qual a perfeição divina é participada pela
criatura, está incluída na significação deles; assim, pedra significa um ser
material. E tais nomes não se podem atribuir a Deus senão metaforicamente. Os
nomes, porém, que significam as perfeições mesmas, absolutamente, sem que
nenhum modo de participação se inclua na significação deles — como ente, bom,
vivente e semelhantes — esses atribuem-se a Deus propriamente.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Dionísio diz que os
nomes em questão podem ser negados de Deus, porque a significação deles não lhe
convém, do mesmo modo pelo qual a exprimem, mas, de modo mais excelente. E, por
isso, Dionísio diz, no mesmo lugar, que Deus está acima de toda substância e de
toda vida.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Os nomes que
se predicam propriamente de Deus implicam condições corpóreas, não pela
significação mesma deles, mas, pelo modo de significar. Os que, porém, se
atribuem a Deus, metaforicamente implicam condição corporal, pela sua
significação mesma.
Fonte: Suma Teológica de
São Tomás de Aquino
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