Questão 12: Como Deus é conhecido por nós.
Tendo,
no que fica dito, tratado de como Deus é, em si mesmo, resta tratarmos como é,
em relação ao nosso conhecimento, e é, como é conhecido pelas criaturas.
E nesta
questão, discutem-se treze artigos:
Art. 8 —
Se os que vêem a Deus em essência vêem tudo em Deus.
O
oitavo discute-se assim. — Parece que os que vêem a Deus em essência vêem tudo
em Deus.
1.
Pois, diz Gregório: O que não verão os que vêem a quem tudo vê? Ora, Deus vê
tudo. Logo, tudo vêem os que vêem a Deus.
2.
Demais. — Quem vê um espelho vê tudo o que nele reflete. Ora, todos os seres
feitos por Deus, ou os que ele pode fazer, nele se refletem como num espelho;
pois Deus conhece, em si mesmo, todas as coisas. Logo, quem vê a Deus vê tudo o
que existe ou pode existir.
3.
Demais. — Quem intelige o mais intelige o menos, como diz Aristóteles. Ora,
tudo o que Deus faz ou pode fazer é menos que a sua essência. Logo, quem
intelige a Deus intelige tudo que Deus faz ou pode fazer.
4.
Demais. — A criatura racional deseja naturalmente saber tudo. Se, pois, vendo a
Deus, não souber tudo, não acalma o seu desejo natural e, então, vendo a Deus,
não será feliz, o que é inadmissível. Logo, vendo a Deus sabe tudo.
Mas, em
contrário, os anjos vêem a Deus por essência e, entretanto, não sabem tudo.
Pois os inferiores são purificados da ignorância, pelos superiores, como diz
Dionísio. E, além disso, eles não conhecem os futuros contingentes e as
cogitações dos corações, que só a Deus pertencem. Logo, os que vêem a essência
de Deus nem por isso vêem tudo.
SOLUÇÃO.
— O intelecto criado, vendo a essência divina, não vê
nela, por isso, tudo o que Deus faz ou pode fazer. Pois, é manifesto que as
coisas são vistas em Deus segundo nele estão. Ora, todas as coisas estão em
Deus como os efeitos estão virtualmente na causa.
Por
onde, são vistas em Deus como aqueles, nestas. Mas, é manifesto que, quanto
mais perfeitamente uma coisa for vista, tanto mais efeitos nela poderão ser
descobertos. Assim, quem tem um intelecto eminente deduz imediatamente, de um princípio
demonstrativo proposto, o conhecimento de muitas conclusões, o que não pode
fazer quem, dotado de intelecto mais fraco, precisa de receber de outrem a
explicação de cada uma dessas conclusões.
Por
onde, o intelecto que compreende totalmente a causa, pode conhecer, nela, todos
os efeitos com as suas razões. Ora, nenhum intelecto criado pode compreender
totalmente a Deus, como já demonstramos. Logo, nenhum, vendo a Deus, pode saber
tudo o que ele faz ou pode fazer, o que seria compreender lhe o poder. Mas o
intelecto que mais perfeitamente vir a Deus, tanto mais poderá conhecer o que
ele faz ou pode fazer.
DONDE
A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Gregório refere-se à
suficiência do objeto, i. é, Deus que, em si mesmo, contém suficientemente
todas as cousas e as manifesta. Mas daí não se segue que, quem o vê tudo
conheça, porque ninguém o compreende perfeitamente.
RESPOSTA
À SEGUNDA. — Quem vê um espelho não vê necessariamente tudo o que ele
reflete, a menos que, com o olhar, o abranja perfeitamente.
RESPOSTA
À TERCEIRA. — Embora seja mais ver a Deus, que todo o resto, contudo,
é mais vê-lo de modo tal a conhecer nele todas as coisas, que de modo a nele
conhecer não todas, mas poucas ou muitas. Pois, como já se demonstrou, a
multidão das causas conhecidas em Deus depende do modo mais ou menos perfeito
de o ver.
RESPOSTA
À QUARTA. — O desejo natural da criatura racional é conhecer tudo o
que lhe pertence à perfeição do intelecto, a saber, as espécies, os gêneros e
as razões das coisas, que verá em Deus quem lhe vir a essência. Porém, conhecer
seres singulares ou os seus pensamentos e atos não é da perfeição do intelecto
criado, nem é essa a tendência do seu desejo, bem como não lhe pertence
conhecer o que Deus não fez, mas pode fazer.
Aliás,
se só Deus fosse visto, fonte e princípio de todo ser e de toda verdade, ele
satisfaria o desejo natural de saber, de modo tal, que nada mais buscaríamos e
seríamos felizes. Por isso, diz Agostinho: (Ó Deus), como o homem é infeliz!
Conhece tudo, menos a ti! Feliz, contudo, de quem te conhecer, ignorando tudo o
mais! Quem te conhecer, porém, a ti e a todas as coisas, não por elas será mais
feliz, mas, por ti só, bem-aventurado.
Fonte: Suma Teológica de São Tomás de Aquino
Você terá a
oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os DOMINGOS, TERÇAS e
QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta obra prima de São
Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
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