Questão 12: Como Deus é conhecido por nós.
Tendo,
no que fica dito, tratado de como Deus é, em si mesmo, resta tratarmos como é,
em relação ao nosso conhecimento, e é, como é conhecido pelas criaturas.
E nesta
questão, discutem-se treze artigos:
Art. 4 —
Se o intelecto criado pode, pelas suas potências naturais, ver a essência
divina.
O quarto discute-se assim. — Parece que o intelecto criado
pode, pelas suas potências naturais, ver a essência divina.
1. —
Pois, diz Dionísio: O anjo é um espírito puro, claríssimo, recebendo em si, por
assim dizer, toda a beleza de Deus . Ora, um ser é visto quando é visto o seu
espelho. Logo, como o anjo se intelige a si mesmo, pelas suas faculdades
naturais, há de inteligir também, do mesmo modo, a essência divina.
2.
Demais. — O que é sumamente visível torna-se-nos menos visível por defeito da
possa vista corpórea ou intelectual. Ora, o intelecto angélico não padece
nenhum defeito. Logo, sendo Deus sumamente inteligível, há de sê-lo para o
anjo, e, portanto, este pode, pelas suas potências naturais, apreender outros
inteligíveis, e, com maior razão, inteligir a Deus.
3.
Demais. — O sentido do corpo não pode elevar-se até inteligir a substância
incorpórea, que lhe está acima da natureza. Se, pois, ver a Deus em essência
excede a natureza de qualquer intelecto criado, conclui-se que nenhuma pode
chegar a ver a essência de Deus, o que é errôneo, como do sobredito resulta.
Logo, é natural ao intelecto criado ver a essência de Deus.
Mas, em
contrário, a Escritura (Rm 6, 23): A graça de Deus é a vida eterna. Ora,
esta consiste na visão da essência divina, conforme aquilo do Evangelho (Jo 17,
3): Esta é a vida eterna em que eles conheçam por um só verdadeiro Deus a ti,
etc. Logo, ver a essência de Deus convém ao intelecto criado, por graça e não
por natureza.
SOLUÇÃO.
— É impossível ao intelecto criado ver a essência de Deus,
pelas suas faculdades naturais. Pois, o conhecimento opera-se pela presença do
objeto no sujeito, Ora, aquele está no segundo, conforme ao modo deste. Logo, o
conhecimento de qualquer sujeito conhecente há de ser conforme ao modo da
natureza deste. Se, portanto, o modo de ser do objeto conhecido exceder o modo
da natureza do sujeito, que conhece, o conhecimento desse objeto há de,
necessariamente, exceder a natureza do sujeito.
Ora, é
múltiplo o modo de existir das coisas. Umas, por natureza, não têm o ser senão
numa certa matéria individual, e tais são todos os seres corpóreos. Outras, e
tais as substâncias incorpóreas a que chamamos anjos, são por natureza
subsistentes por si mesmas, sem nenhuma matéria; contudo, não são o próprio ser
mas o possuem pois, só de Deus é próprio o modo de existir, pelo qual é o seu
mesmo ser subsistente.
Ora,
sendo a nossa alma, pela qual conhecemos, a forma de uma determinada matéria,
é-nos conatural conhecer as coisas que têm o ser só na matéria individual. A
nossa alma, porém, encerra virtudes cognoscitivas de duas espécies, uma é ato
de órgão corpóreo e a esta é conatural conhecer as coisas que têm o ser na
matéria individual; e, por isso, os sentidos não podem conhecer senão o
singular.
Outra,
porém, é a virtude cognoscitiva do intelecto... que não é ato de nenhum órgão
corpóreo; e por isso é-nos conatural conhecer, por meio dele as naturezas que
têm o ser numa determinada matéria individual, mas não como tais, senão
enquanto abstrai dessa matéria pela consideração da inteligência. Por onde,
pela inteligência, podemos conhecer tais coisas universalmente, o que sobrepuja
a capacidade do sentido. — Ao intelecto angélico, por seu lado, é conatural
conhecer as naturezas, que não existem na matéria, o que sobreleva a faculdade
natural do intelecto, no estado da vida presente, em que está unida ao corpo.
Ora, de tudo isto se conclui, que conhecer o ser mesmo subsistente é conatural só ao intelecto divino e sobre-excede a faculdade natural de qualquer intelecto criado, porque nenhuma criatura é o seu próprio ser, mas o tem participadamente. — Logo, o intelecto criado não pode ver a Deus, por essência, a menos que Deus, por graça, se lhe una e se lhe torne inteligível.
DONDE
A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — É conatural ao anjo o modo
de conhecer a Deus consistente em ter o próprio anjo, em si, uma refulgente
semelhança de Deus. Ora, conhecer a Deus por qualquer semelhança criada não é
conhecer a essência de Deus, como acima ficou dito. Logo, não se conclui que o
anjo possa, pelas suas potências naturais, conhecer a essência de Deus.
RESPOSTA
À SEGUNDA. — A inteligência do anjo não tem defeito, entendendo-se
esta palavra privativamente, i. é, de modo que ao anjo falte algo do que deve
ter. Tomada, porém, em sentido negativo, não há criatura que não seja deficiente
comparada com Deus, pois não tem aquela excelência própria de Deus.
RESPOSTA À TERCEIRA. — A vista, sendo absolutamente material, de nenhum modo pode elevar-se ao que quer que seja de imaterial. Porém o nosso intelecto, como o angélico, elevado, de certo modo e por natureza, acima da matéria, pode ascender, pela graça, a algo de mais alto que lhe sobrepassa a natureza. E a prova é que a vista de modo nenhum conhece por abstração o que conhece concretamente; assim, de nenhum modo pode perceber uma natureza senão como individual.
Porém, o nosso intelecto pode considerar abstratamente o que conhece de maneira concreta. Assim, embora conheça coisas que têm a forma realizada na matéria, contudo, decompõe o composto nas suas duas componentes e considera a forma em si mesma. Semelhantemente, o intelecto angélico, embora lhe seja conatural conhecer o ente concreto em uma natureza particular, pode contudo separá-lo pelo intelecto, conhecendo que uma coisa é ele e outra, o ser que tem.
Por onde, o intelecto criado sendo capaz, por natureza, de apreender
uma forma concreta e um ser concreto, abstratamente, por uma como análise
resolutiva, pode também, pela graça, ser elevado, de modo que conheça a
substância separada e o ser separado subsistente.
Fonte: Suma Teológica de São Tomás de Aquino
Você terá a
oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os DOMINGOS, TERÇAS e
QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta obra prima de São
Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
E para receber notificações de atualização, inscreva-se no
nosso canal: Biblioteca Digital - Suma Teológica 🙏. Através do link: https://t.me/bibliotecadigitalsuma
Comentários
Postar um comentário