Questão 10: Da eternidade de Deus.
Em
seguida devemos tratar da eternidade. E nesta questão discutem-se seis artigos:
Art. 3 — Se ser eterno é próprio só de Deus.
O terceiro discute-se assim. — Parece que ser eterno não é
próprio de Deus.
1. — Pois, diz a Escritura (Dn 12, 3): E os que tiverem
ensinado a muitos o caminho da justiça, esses luzirão como as estrelas por
todas as eternidades. Ora, não haveria várias eternidades se só Deus fosse
eterno. Logo, nem só ele o é.
2. Demais. — Diz ainda a Escritura (Mt 25, 41):
Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. Logo, nem só Deus é eterno.
3. Demais. — Todo necessário é eterno. Ora, há muitas
coisas necessárias, como p. ex., todas as proposições demonstrativas. Logo, nem
só Deus é eterno.
Mas, em contrário, diz Jerônimo a Dámaso: Só Deus
não tem princípio. Ora, tudo o que tem princípio não é eterno. Logo, só Deus é
eterno.
SOLUÇÃO. —
A eternidade, verdadeira e propriamente, só a Deus convém; pois resulta da
imutabilidade, como já vimos, e só Deus é absolutamente imutável, segundo
estabelecemos. E, na medida em que os seres dele recebem a imutabilidade, nessa
mesma lhe participam da eternidade.
Ora, há certos seres que recebem de Deus a imutabilidade,
de modo tal que nunca mais deixam de existir; e, neste sentido, a Escritura
(Ecl 1, 4) diz que aterra permanece sempre firme. Há outros seres que, na Escritura,
também se denominam eternos, por durarem diuturnamente, embora sejam
corruptíveis; assim os montes chamam-se eternos (Sl 45, 5) e fala-se dos frutos
eternos (Dt 33, 15).
Mas, há ainda outros seres, que mais amplamente participam
da eternidade, por terem o ser incorruptível ou mesmo, além disso, imutável a
operação, como os anjos e os bem-aventurados, que gozam do Verbo; pois, quanto
à visão do Verbo, não são mutáveis as cogitações dos santos, conforme diz
Agostinho. Por isso se diz que os que vêem a Deus possuem a vida eterna,
segundo a Escritura (Jo 17, 3): A vida eterna porém consiste em que eles te
conheçam por um só verdadeiro Deus, etc.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Consideram-se muitas as eternidades, por serem muitos os
que dela participam, contemplando a Deus.
RESPOSTA À SEGUNDA. —
O fogo do inferno chama-se eterno, só por ser interminável. Há, porém, mudança
nas penas dos condenados, como se vê na Escritura (Jó 24, 19): Ele passa das
águas da neve para um excessivo calor. Por onde, no inferno não há verdadeira
eternidade, mas antes, tempo, conforme a mesma Escritura (Sl 80, 16): E durará
o tempo deles por todos os séculos.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Necessário significa um certo modo de ser da verdade,
pois esta, segundo o Filósofo, está no intelecto. O verdadeiro e o necessário
são, assim, eternos por existirem num intelecto eterno, que é só o divino.
Donde não se segue, que alguma coisa, fora de Deus, seja eterna.
Fonte: Suma Teológica de
São Tomás de Aquino
Você terá a oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os
DOMINGOS, TERÇAS e QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta
obra prima de São Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
E para receber notificações de atualização,
inscreva-se no nosso canal: Biblioteca Digital - Suma Teológica 🙏. Através
do link: https://t.me/bibliotecadigitalsuma
Comentários
Postar um comentário