Questão 10: Da eternidade de Deus.
Em
seguida devemos tratar da eternidade. E nesta questão discutem-se seis artigos:
Art. 2 — Se Deus é eterno.
O segundo discute-se assim. — Parece que Deus não é
eterno.
1. — Pois, nada do que lhe é feito lhe pode ser atribuído.
Ora, a eternidade é feita, conforme a expressão de Boécio: O momento que passa
constitui o tempo; o que permanece, a eternidade; e Agostinho : Deus é o autor
da eternidade. Logo, Deus não é eterno.
2. Demais. — O anterior e o posterior à eternidade por ela
não se mede. Ora, Deus é anterior, como diz o livro De Causis; e posterior,
conforme a Escritura (Ex 15, 18): O Senhor reinará eternamente e além da
eternidade. Logo, ser eterno não é próprio de Deus.
3. Demais. — A eternidade é uma espécie de medida. Ora, a
Deus não convém ser medido. Logo, nem ser eterno.
4. Demais. — A eternidade não tem presente, pretérito, nem
futuro, porque existe total e simultaneamente, como se disse. Ora, a Escritura
aplica a Deus palavras que exprimem os tempos presente, pretérito e futuro. Logo,
Deus não é eterno.
Mas, em contrário, diz Atanásio: Eterno Padre,
Eterno Filho, Eterno Espírito Santo.
SOLUÇÃO. —
A noção da eternidade resulta da imutabilidade, como a de tempo resulta do
movimento, conforme do sobredito resulta. Ora, sendo Deus o ser imutável por
excelência, convém-lhe, excelentemente, a eternidade. Nem só é eterno, mas é a
sua eternidade, ao passo que nenhuma coisa é a própria duração, porque não é o
próprio ser. Deus, porém, sendo o seu ser uniformemente e a sua própria
essência, há de, necessariamente, ser a sua eternidade.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA
OBJEÇÃO. — Pela nossa apreensão é que
se diz que o momento permanenteconstitui a eternidade. Pois, assim, como a
nossa apreensão do tempo tem a sua causa no apreendermos o fluxo mesmo do
momento, assim procede em nós a apreensão da eternidade, de apreendermos o
momento permanente. E a expressão de Agostinho — Deus é o autor da eternidade —
entende-se da eternidade participada. Pois, Deus comunica a sua eternidade a
certos seres, do mesmo modo por que comunica a sua imutabilidade.
E daqui se deduz clara a RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO. —
Pois, diz-se que Deus é anterior à eternidade, enquanto participado pelas
substâncias materiais; e, por isso, o mesmo livro diz, que a inteligência se alça
ao nível da eternidade. E na expressão do Êxodo: o Senhor reinará eternamente e
além da eternidade — eternamente é empregado no sentido de século, como se lê
em outra versão. Assim, pois, diz-se que reinará além da eternidade, porque
dura mais que qualquer século, i. é, além de qualquer duração dada; pois,
século não é mais que o período de um ser, como diz Aristóteles. Ou ainda,
diz-se que reina além da eternidade, porque, se alguma coisa existisse sempre,
como o movimento do céu, segundo certos filósofos, ainda Deus reinaria mais,
porque o seu reino existe total e simultaneamente.
RESPOSTA À TERCEIRA. —
A eternidade não é outra coisa senão Deus. Por onde, diz-se que Deus é eterno,
não porque seja, de certo modo, medido; pois, a noção de medida emprega-se aí
só para auxiliar nossa apreensão.
RESPOSTA À QUARTA. — As palavras que designam os diversos tempos atribuem-se
a Deus, porque a sua eternidade os inclui a todos; não, porém, que ele encerre
qualquer variação, que se desenvolva no presente, no pretérito e no futuro.
Fonte: Suma Teológica de
São Tomás de Aquino
Você terá a oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os
DOMINGOS, TERÇAS e QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta
obra prima de São Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
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