Questão 7: Da infinidade de Deus.
Após
havermos tratado da perfeição de Deus, devemos tratar da sua infinidade e da
sua existência nas coisas; pois, dizemos que Deus, sendo sem limites e
infinito, está em toda parte e em todas as coisas. Na primeira questão
discutem-se quatro artigos:
Art. 4 — Se é possível existir atualmente uma infinita multidão de
seres.
O quarto discute-se assim. — Parece que é possível existir
atualmente uma infinita multidão de seres.
1. — Pois não é impossível o potencial atualizar-se. Ora,
o número é multiplicável ao infinito. Logo, não é impossível existir atualmente
uma infinita multidão de seres.
2. Demais. — De uma espécie qualquer é possível existir
atualmente um indivíduo. Ora, as espécies de figuras são infinitas. Logo, é
possível existirem atualmente infinitas figuras.
3. Demais. — Seres que se não opõem uns aos outros não
mantêm, entre si, impedimentos. Ora, admitida uma multidão de seres, ainda se
poderiam admitir muitos outros, não opostos aos primeiros. Logo, não é impossível,
simultaneamente, existirem outros ainda, e assim ao infinito. Logo, é possível
existirem, atualmente, seres infinitos.
Mas, em contrário, diz a Escritura (Sb 11, 21):
Todas as coisas dispuseste com medida e conta e peso.
SOLUÇÃO. — Sobre este assunto houve duas opiniões. — Uns, com Avicena e Algazal, disseram ser impossível existir atualmente uma multidão infinita, em si mesma; mas que, acidentalmente, tal multidão não é impossível.
Pois, diz-se que a multidão é
infinita em si mesma, quando é necessária à realização de alguma coisa; o que é
impossível, porque, então, essa coisa dependeria de um número infinito de
condições e nunca viria a existir, por não ser possível percorrer o infinito.
Acidentalmente, porém, diz-se infinita a multidão que não
contribui, senão por acidente, para a existência de alguma coisa. E isto pode
se ver p. ex., na operação do ferreiro, que exige uma certa multidão em si
mesma, a saber, a arte, existente na alma, a mão, que move, e o martelo,
elementos estes que, multiplicados ao infinito, não permitiriam nunca a
existência da obra, que dependeria, então, de infinitas causas.
Porém, a multidão dos martelos empregados sucessivamente
para substituir os que se quebraram é acidental; pois, é por acidente que se
empregam muitos martelos, nada importando o emprego de um, de dois, de muitos
ou de infinitos, se o ferreiro operar num tempo infinito. E, deste modo,
admitiam a possibilidade da multidão atualmente infinita, por acidente.
— Ora, isto é impossível, porque toda multidão deve pertencer
a uma determinada espécie, e as espécies de multidão dependem das espécies dos
números; e como nenhuma espécie de número é infinita, pois cada um é uma
multidão medida pela unidade, conclui-se a impossibilidade de existir uma
infinita multidão atual, em si, ou acidentalmente.
— Demais. Toda a multidão realmente existente é criada, e
todo criado está compreendido em alguma determinada intenção do criador; pois,
nenhum agente obra em vão. Por onde, necessariamente, todos os seres criados
estão compreendidos em um certo número. Logo, é impossível existir uma infinita
multidão atual, mesmo acidentalmente.
— É possível, porém, existir uma infinita multidão
potencial. Pois, o aumento da multidão resulta da divisão da grandeza; quanto
mais um ser é dividido, tanto mais elementos numéricos resultam. Por onde,
assim como o infinito existe potencialmente na divisão do contínuo, porque
avançamos na matéria, como já demonstramos, assim também, do mesmo modo existe
no aumento da multidão.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O potencial se atualiza, conforme o seu modo de ser;
assim, os dias se atualizam, não simultânea, mas sucessivamente.
Semelhantemente, é de modo sucessivo e não simultâneo, que a multidão infinita
se atualiza, pois além de qualquer multidão podemos sempre supor outra, ao
infinito.
RESPOSTA À SEGUNDA. —
Numericamente é que são infinitas as espécies de figuras, como o trilátero, o
quadrilátero e assim por diante. Ora, a multidão, numericamente infinita, não
se atualizando ao mesmo tempo, o mesmo se dá com a multidão de figuras.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Embora certas coisas não contrariem as outras, contudo o
infinito é contrário a qualquer espécie de multidão. Por onde, não é possível
existir uma infinita multidão atual.
Fonte: Suma Teológica de
São Tomás de Aquino
Você terá a oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os
DOMINGOS, TERÇAS e QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta
obra prima de São Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
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