Questão 7: Da infinidade de Deus.
Após
havermos tratado da perfeição de Deus, devemos tratar da sua infinidade e da
sua existência nas coisas; pois, dizemos que Deus, sendo sem limites e
infinito, está em toda parte e em todas as coisas. Na primeira questão
discutem-se quatro artigos:
Art. 3 — Se pode haver um infinito atual em grandeza.
O terceiro discute-se assim. — Parece que pode haver um
infinito atual em grandeza.
1. — Pois, nas ciências matemáticas não há falsidade,
porque na abstração não há mentira, como diz Aristóteles. Ora, essas ciências
empregam o infinitamente grande; assim, diz o geômetra nas suas demonstrações:
Seja tal linha infinita. Logo, não é impossível haver o infinitamente grande.
2. Demais. — Não é impossível convir a uma coisa o que não
lhe contraria a noção. Ora, ser infinito não vai contra a noção de grandeza; ao
contrário, finito e infinito parece que são atribuições que a quantidade sofre.
Logo, não é impossível haver uma grandeza infinita.
3. Demais. — A grandeza é como o contínuo, que se define:
o divisível ao infinito, como se vê em Aristóteles. Ora, os contrários são
correlativos e têm medida comum. E sendo a divisão oposta à adição, e o
aumento, à diminuição, resulta que a grandeza pode crescer ao infinito e,
portanto, pode ser infinita.
4. Demais. — O movimento e o tempo têm, da grandeza
percorrida pelo primeiro, a quantidade e a continuidade, como diz Aristóteles.
Ora, não repugna à natureza do tempo e do movimento serem infinitos, porque
cada indivisível que se pode designar no tempo e no movimento circular é
princípio e fim. Logo, também não é contra a noção de grandeza o ser infinito.
Mas, em contrário. — Todo corpo tem superfície e
portanto é finito, por lhe ser ela o limite. Logo, todo corpo é finito,
podendo-se dizer o mesmo da superfície e da linha. Logo, nada é infinito em
grandeza.
SOLUÇÃO. — Uma coisa é ser infinito em essência e outra, em grandeza. Ora, dado que existisse um corpo infinito em grandeza, como o fogo, ou o ar, nem por isso o seria em essência, porque esta seria determinada a alguma espécie pela forma e a algum indivíduo, pela matéria. Por onde, estabelecido, pelo que já vimos, que nenhuma criatura é infinita por essência, resta indagar se alguma o é pela grandeza.
— Ora, devemos saber que o corpo, que é a grandeza completa, pode ser
tomado em dupla acepção: matematicamente, quando nele se considera só a
quantidade; e naturalmente, quando se levam em conta a matéria e a forma.
— Ora, que o corpo natural não pode ser atualmente
infinito, é manifesto. Pois, todos têm forma substancial determinada; e como
desta resultam os acidentes, necessariamente de uma determinada forma resultarão
determinados acidentes, entre os quais, a quantidade. Por onde, todo corpo
natural tem uma determinada quantidade, maior ou menor e, portanto, não pode
ser infinito. E isto também se deduz claramente no movimento. Pois, todo corpo
natural tem algum movimento natural.
Ora, tal movimento não pode ser um corpo infinito; o reto, não, porque só tem naturalmente esse movimento o que está fora do seu lugar, o que não pode convir ao corpo infinito que, então, ocuparia todos os lugares e qualquer lugar, indiferentemente, seria o seu.
O movimento circular, também
não, porque, neste, é necessário cada parte do corpo ser transferida para o
lugar em que estava outra, o que não pode dar-se com um corpo circular suposto
infinito; pois, do contrário, duas linhas, partindo do centro, quanto mais dele
se afastassem tanto mais distanciaria uma da outra e, dada a infinidade do
corpo, haveria entre elas uma distância infinita; e, então, uma nunca poderia
ocupar o lugar da outra.
— O mesmo se pode dizer do corpo matemático, pois se o
imaginarmos atual, havemos de lhe atribuir uma forma determinada, porque nada
se atualiza senão por uma forma. Por onde, a forma do ser quantitativo, como
tal, sendo a figura, o corpo em questão há de ter alguma figura e, então, será
finito, pois a figura é, precisamente o que está compreendido em um ou vários
termos.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O geômetra não precisa supor nenhuma linha atualmente
infinita, mas, uma da qual possa subtrair quanto for necessário e a que chama
infinita.
RESPOSTA À SEGUNDA. —
Embora o infinito não contrarie a idéia de grandeza, em geral, contraria,
contudo, a de qualquer grandeza de espécie quantitativa, como dois côvados,
três côvados, a grandeza circular ou triangular e semelhantes. Ora, não é possível
existir num gênero o que em nenhuma espécie existe. Logo, não é possível haver
nenhuma grandeza infinita, pois nenhuma espécie de grandeza é tal.
RESPOSTA À TERCEIRA. —
O infinito quantitativo, conforme se disse, é o próprio à matéria. Assim, pela
divisão do todo avançamos na matéria, que é a razão de existirem as partes. Ao
contrário, pela adição, aproximamo-nos do todo, que se comporta como forma. Por
isso, não encontramos o infinito na adição da grandeza, mas, só, na divisão.
RESPOSTA À QUARTA. — O movimento e o tempo existem em ato sucessivo e não,
simultaneamente e, por isso, têm a potência de mistura com o ato; ao passo que
a grandeza é toda atual. Logo, o infinito próprio à quantidade e dependente da
matéria repugna à totalidade da grandeza; não porém, à do tempo ou do
movimento, pois existir em potência é próprio da matéria.
Fonte: Suma Teológica de
São Tomás de Aquino
Você terá a oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os
DOMINGOS, TERÇAS e QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta
obra prima de São Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
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