Questão 5: Do bem em geral
Em
seguida, devemos tratar do bem. Primeiro, do bem em geral; segundo, da bondade
de Deus; na primeira questão discutem-se seis artigos:
Art. 6 — Se o bem se divide adequadamente em honesto, útil e
deleitável.
O
sexto discute-se assim. — Parece que o bem não se divide adequadamente em
honesto, útil e deleitável.
1.
— Pois o bem, como diz o Filósofo, se reparte pelos dez predicamentos. Ora, o
honesto, o útil e o deleitável, podem-se encontrar num só. Logo, tal divisão
não é adequada.
2.
Demais. — Toda divisão se faz por contrariedades. Ora, as três partes da
divisão supra não são contrárias; pois o honesto também é deleitável e nada de
desonesto é útil, como também diz Túlio. Logo, tal divisão não é adequada.
3.
Demais. — Quando uma coisa tem sua razão de ser em outra, ambas não constituem
mais que uma. Ora, o útil é bom, só por causa do deleitável ou do honesto.
Logo, não deve ser-lhes considerado contrário, na divisão.
Mas,
em contrario, Ambrósio aceita esta divisão do bem.
SOLUÇÃO.
— Esta divisão é propriamente
do bem humano. Mas serve também, propriamente, para o bem como tal, se
considerarmos essa noção mais alta e largamente. Pois é bem aquilo que é
desejável e termo do movimento do apetite, termo que pode ser apreciado
conforme o movimento dos corpos naturais.
Ora,
o movimento de um corpo natural acaba, absolutamente falando, no seu último
termo; relativamente, porém, no termo médio, pelo qual chega ao último; e
assim, chama-se termo de um movimento qualquer ponto em que uma parte dele
acaba.
Porém,
o termo último do movimento pode ser tomado, em sentido amplo, como a causa
mesma para o qual ele tende, p. ex., o lugar ou a forma; ou como o repouso na
mesma.
Por
onde, chama-se útilo que é desejável e termina o movimento do apetite,
relativamente, como meio de tender a outra coisa. Honesto se chama ao que é
desejado com uma coisa, que termina total e ultimamente o movimento do apetite,
à qual, em si mesma este tende; pois, honesto se denomina aquilo que é desejado
em si mesmo. A deleitação, por fim, é o que termina o movimento do apetite,
como repouso na coisa desejada.
DONDE
A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. —
O bem, enquanto tem o mesmo sujeito que o ente, se reparte pelos dez
predicamentos; mas em na sua noção própria, aplica-se-lhe a divisão supra.
RESPOSTA
À SEGUNDA. — A referida divisão não se
estabelece por contrariedades reais, mas, nocionais. — Assim, chama-se
propriamente deleitável aquilo que nada tem de desejável, além da deleitação;
podendo ser, às vezes, nocivo e desonesto. Útil é chamado aquilo que é
desejado, não por si mesmo, mas só enquanto conducente a outra coisa, como p.
ex., tomar um remédio amargo. Honesto, por fim, o que é desejado em si mesmo.
RESPOSTA À TERCEIRA. —
Ao bem se aplica a tripartida divisão supra, não como se ele fosse unívoco,
isto é, predicado igualmente de cada um dos três termos; mas, como análogo, que
se predica por prioridade e posteridade. Assim, é predicado, primariamente, do
honesto; secundariamente, do deleitável e, em terceiro lugar, do útil.
Fonte: Suma Teológica de São Tomás de Aquino
Você terá a oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os
DOMINGOS, TERÇAS e QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta
obra prima de São Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
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