Questão 5: Do bem em geral
Em
seguida, devemos tratar do bem. Primeiro, do bem em geral; segundo, da bondade
de Deus; na primeira questão discutem-se seis artigos:
Art. 4 —
Se o bem tem, antes, a natureza da causa final do que as demais causas.
O
quarto discute-se assim. — Parece que o bem tem mais a natureza das outras
causas do que a da final.
1.
— Pois, como diz Dionísio, o bem é louvado como belo. Ora, este implica a natureza
da causa formal. Logo, o bem implica igualmente essa natureza.
2.
Demais. — O bem é difusivo de si, como resulta das palavras de Dionísio,
dizendo: pelo bem é que tudo subsiste e é. Ora, ser difusivo implica a natureza
de causa eficiente. Logo, o bem tem a natureza dessa causa.
3.
Demais. — Diz Agostinho que nós existimos porque Deus é bom. Ora, nós existimos
porque Deus é a nossa causa eficiente. Logo, o bem implica a natureza de tal
causa.
Mas,
em contrário, diz o Filósofo: Aquilo para o que alguma coisa existe é o
fim e o bem de tudo o mais. Logo, o bem tem a natureza de causa final.
SOLUÇÃO.
— Sendo o bem aquilo que
todos os seres desejam, e implicando isto a idéia de fim, é claro que o bem
implica essa mesma idéia, mas também a de causa eficiente e de causa formal.
Pois vemos que aquilo que é primeiro no causar, é último no efeito; assim o
fogo aquece antes de comunicar sua forma, embora esta lhe resulte da sua forma
substancial.
Assim,
na ordem da causalidade, primeiro, vem o bem e o fim, que move a causa
eficiente; depois, ação desta, que move para a forma; e, terceiro, sobrevém a
forma. E universalmente, quanto ao efeito: primeiro, vem a forma, que determina
o ser; segundo, nessa forma descobrimos uma virtude ativa, própria do ser
enquanto perfeito, pois é perfeito o que pode produzir algo de semelhante a si,
como diz o Filósofo; terceiro, segue-se a noção do bem, pela qual a perfeição
se funda no ser.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O belo e o bem considerados em relação ao sujeito, se identificam, porque têm o mesmo fundamento — a forma; e, por isso, o bem é louvado como belo.
Mas,
racionalmente, diferem, pois o bem, propriamente, se refere ao apetite, sendo o
que todos os seres desejam; e, portanto, exerce a função de fim, porque o
apetite é um como que movimento para a realidade.
O
belo, porém, diz respeito à faculdade cognoscitiva, pois, chamam-se belas às
coisas, que, vistas, agradam. E, por isso, o belo consiste na proporção devida;
pois os sentidos se deleitam com os seres, devidamente proporcionados, como se
lhes fossem semelhantes; porque eles, ao modo de toda virtude cognoscitiva,
são, de certa maneira, proporção.
Ora,
o conhecimento implicando assimilação, e esta supondo uma forma, o belo
depende, propriamente, da noção de causa formal.
RESPOSTA
À SEGUNDA. — O bem é considerado
difusivo de si, no mesmo sentido em que se diz que o fim move.
RESPOSTA À TERCEIRA. — O ser dotado de vontade é considerado bom se a tem boa, porque, por meio da vontade é que usamos de todas as nossas faculdades; e por isso não se chama bom o homem que tem bom intelecto, mas o que tem a vontade boa.
Pois a vontade visa
o fim como objeto próprio; e assim, a expressão —nós existimos porque Deus é
bom — refere-se à causa final.
Fonte: Suma Teológica de
São Tomás de Aquino
Você terá a oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os
DOMINGOS, TERÇAS e QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta
obra prima de São Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
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