Questão 3: Da simplicidade de Deus
Conhecida a existência de uma coisa, resta inquirir como
existe, para que se saiba o que é. Porém, como não podemos saber o que é Deus,
mas o que não é, não podemos considerar como é, mas, como não é.
Ora, podemos mostrar como Deus não é removendo o que lhe não convém, p. ex.: a composição, o movimento, e atributos semelhantes.
Na primeira questão, discutem-se oito artigos::
O sexto discute-se assim. Parece que em Deus há acidentes.
1. — Pois, a substância em nenhum ser é acidente. Ora, o
que num é acidente não pode ser substância em outro. Assim, prova-se que o
calor, sendo acidente em outros seres, não pode ser a forma substancial do
fogo. Ora, a sabedoria, a virtude e qualidades semelhantes, que são acidentes
em nós, atribuem-se a Deus. Logo, há nele acidentes.
2. Demais. — Em cada gênero
há um primeiro termo. Ora, muitos são os gêneros de acidentes. Se, portanto, os
termos primeiros desses gêneros não existem em Deus, haverá muitos seres
primeiros além de Deus, o que é inadmissível.
Mas, em contrário, todo acidente existe num
sujeito. Ora, Deus não pode ser sujeito, porque não pode sê-lo a forma simples,
como diz Boécio. Logo, não há nele acidentes.
SOLUÇÃO. —
Do que dissemos, claramente resulta que, em Deus, não pode haver acidentes. —
Primeiro, porque o sujeito está para o acidente como a potência para o ato;
pois, em relação ao acidente, o sujeito é, de certo modo, atual. Ora, em Deus
não há absolutamente nada de potencial, conforme se conclui do que já dissemos.
Segundo, porque Deus é o seu ser. Ora, como diz Boécio,
embora o que existe seja susceptível de acréscimo, contudo, o ser em si de
nenhum modo o é. Assim, um corpo cálido pode ter algo de estranho à calidez,
como a brancura; mas, no calor mesmo, nada mais há além dele próprio.
Terceiro, porque tudo o que existe por si mesmo é anterior
ao que tem existência acidental. Donde, sendo Deus o ser absolutamente
primeiro, nada pode ter de acidental; nem mesmo os acidentes próprios, — como o
de risível, no homem — podem nele existir. Porque todos os acidentes são
causados pelos princípios do sujeito, e, em Deus, causa primeira, nada pode ser
causado. Donde se conclui, que em Deus, não há nenhum acidente.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A virtude e a sabedoria não se atribuem univocamente a
Deus e a nós, como a seguir se dirá. — Donde se não segue que os acidentes
existam em Deus como em nós.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Sendo a substância anterior aos acidentes, os princípios
destes se reduzem aos daquela, como ao que lhes é anterior. Mas, para que todos
os seres dependam de Deus, não é necessário que ele seja o primeiro no gênero
da substância, senão, o primeiro, fora de todo gênero, relativamente ao ser
total.
Fonte: Suma Teológica de São Tomas de Aquino
Você terá a oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os DOMINGOS, TERÇAS e QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta obra prima de São Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
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