Questão 3: Da simplicidade de Deus
Conhecida
a existência de uma coisa, resta inquirir como existe, para que se saiba o que
é. Porém, como não podemos saber o que é Deus, mas o que não é, não podemos
considerar como é, mas, como não é.
Ora, podemos mostrar como Deus não é removendo o que lhe não convém, p. ex.: a composição, o movimento, e atributos semelhantes.
Na
primeira questão, discutem-se oito artigos:
Art. 4 — Se em Deus se
identificam a essência e a existência.
O quarto discute-se assim. — Parece que em Deus não se identificam a essência e a existência.
1.
— Pois, se assim não fosse, nada se poderia acrescentar ao ser divino. Ora, o
ser que não é susceptível de nenhuma adição é o ser em geral, que se predica de
todos; e, portanto, Deus seria tal ser de todos predicado. Ora; isto é falso,
segundo aquilo da Escritura (Sb 14,21): Deram às pedras e ao pau um nome
incomunicável.Logo, a existência de Deus não é idêntica à sua essência.
2.
Demais. — Como já se disse, podemos saber se Deus existe, mas não, o que é.
Logo, não se identificam a existência de Deus e a sua essência, quididade ou
natureza.
Mas,
em contrário, diz Hilário: A existência não é um acidente, em Deus, mas
verdade subsistente. Logo, o que subsiste em Deus é a sua existência.
SOLUÇÃO.
—
Deus é, não somente, a sua essência, como já demonstramos, mas também a sua
existência, o que se pode provar de muitos modos.
Primeiro,
porque tudo o que existe num ente, sem lhe constituir a essência, deve ser
causado pelos princípios desta, como acidentes próprios resultantes da espécie.
Assim, a faculdade de rir resulta do ser humano e é causada pelos princípios
essenciais da espécie. Ou, então, deve ser causado por algum ser exterior:
assim, o calor da água é causado pelo fogo.
Por
onde, sendo a existência mesma do ente diferente da sua essência, é necessário
seja essa existência causada por algum ser exterior, ou pelos princípios
essenciais do referido ente. Ora, é impossível seja ela causada somente pelos
princípios essenciais deste, pois, nenhum ente de existência causada é
suficiente para ser causa da sua própria existência.
Portanto
e necessariamente, o ente cuja existência difere da essência, há de ter aquela
causada por outro ser. Mas, isto não se pode dizer de Deus, pois, já provamos
ser ele a causa eficiente primeira. Logo, é impossível que, em Deus, a
existência seja diferente da essência.
Segundo,
porque a existência é a atualidade de toda forma ou natureza; assim, a bondade
ou a humanidade não são atuais senão quando as supomos existentes.
Necessariamente, pois, a existência está para a essência, da qual difere, como
o ato para a potência. Ora, Deus nada tendo de potencial, como demonstramos,
resulta que a sua essência não difere da sua existência e, portanto, são idênticas.
Terceiro,
porque, assim como o que tem fogo, sem ser fogo, é ígneo por participação,
assim também o que existe, sem ser a existência, existe por participação. Ora,
como já estabelecemos, Deus é a sua essência. Se, portanto, não for a sua
existência, será ser por participação e não, por essência. Logo, não será o ser
primeiro, o que é absurdo. Por consequência, Deus é a sua existência e não
somente, a sua essência.
DONDE
A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A expressão — ser que não é susceptível de
nenhuma adição — pode ser entendida em duplo sentido. Ou porque é tal que, por
natureza, não se lhe pode adicionar nada, como se dá com o animal irracional,
que, por natureza, não pode ter razão; ou porque a sua essência não comporta
nenhuma adição, como é o caso do animal em geral, que, por essência, sendo
desprovido de razão, não a comporta, sem que, por outro lado essa essência
exija que seja privado dela.
Ora,
no primeiro sentido é o ser divino que não é susceptível de adição; e no
segundo, o ser em geral.
RESPOSTA À SEGUNDA. — O
vocábulo ser é susceptível de duplo sentido. Ora significa o ato de existir;
ora a composição proposicional, que o espírito descobre quando une o predicado
ao sujeito. Na primeira acepção, não podemos conhecer a existência de Deus nem
a sua essência, mas só na segunda. Pois, sabemos que a proposição que formamos
sobre Deus, quando dizemos —Deus existe — é verdadeira; e isto sabemos pelos
efeitos de Deus, como já dissemos.
Fonte: Suma Teológica
de São Tomás de Aquino
Você terá a
oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os DOMINGOS, TERÇAS e
QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta obra prima de São
Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
E para receber notificações de atualização, inscreva-se no nosso
canal: Biblioteca Digital - Suma Teológica 🙏. Através do link: https://t.me/bibliotecadigitalsuma
Comentários
Postar um comentário