Questão 3: Da simplicidade de Deus
Conhecida a existência de uma coisa, resta inquirir como
existe, para que se saiba o que é. Porém, como não podemos saber o que é Deus,
mas o que não é, não podemos considerar como é, mas, como não é.
Ora, podemos mostrar como Deus não é removendo o que lhe não convém, p. ex.: a composição, o movimento, e atributos semelhantes.
Na primeira questão, discutem-se oito artigos::
O quinto discute-se assim. — Parece que Deus pertence a
algum gênero.
1. — Pois, substância é o ser por si subsistente, o que é
por excelência próprio de Deus. Logo, Deus pertence ao gênero da substância.
2. Demais. — Uma coisa mede-se pela sua congênere, como as
longitudes, pela longitude e os números, pelo número. Ora, Deus é a medida de
todas as substâncias, como o diz o Comentador. Logo, Deus pertence ao gênero da
substância.
Mas, em contrário, o gênero é, racionalmente,
anterior ao seu conteúdo. Ora, nada é anterior a Deus, nem material nem
racionalmente. Logo, não pertence a nenhum gênero.
SOLUÇÃO. — De dois modos uma coisa pode pertencer a um gênero:
absoluta e propriamente, como as espécies, que ele abrange; ou por via de
redução, como os princípios e as privações. Assim, o ponto e a unidade se
reduzem ao gênero da quantidade, como princípios; a cegueira, como toda
privação, ao gênero do seu hábito. — Ora, de nenhum desses modos Deus pertence
a um gênero. E, por outro lado, que não pode ser espécie de nenhum, de três
modos pode ser demonstrado.
Primeiro, porque uma espécie
é constituída pelo seu gênero e pela sua diferença; e sempre a origem da
diferença constitutiva da espécie está para a origem do gênero, como o ato,
para a potência. Assim, animal deriva da natureza sensitiva, por concreção;
pois, chama-se animal o ser dessa natureza sensitiva. Racional, por seu lado,
deriva da natureza intelectiva, pois racional é o ser que tem essa natureza.
Ora, intelectivo está para sensitivo como o ato, para a potência, o mesmo se
dando em casos semelhantes. Ora, como em Deus nenhuma potência vem
acrescentar-se ao ato, impossível é que seja espécie de qualquer gênero.
Segundo, porque sendo a
existência a essência de Deus, como já demonstramos, se Deus pertencesse a
algum gênero, este seria necessariamente o do ser, pois o gênero exprime a
essência de uma coisa e predica o que a coisa é. Ora, como o Filósofo o
demonstra, o ser não pode constituir gênero de nada; pois, todo gênero implica
diferenças estranhas à sua essência. E não é possível descobrir nenhuma
diferença exterior ao ser, visto que não pode o não-ser diferenciar nada. Donde
resulta que Deus não pertence a nenhum gênero.
Terceiro, porque todas as
coisas pertencentes a um mesmo gênero devem ter também a mesma quididade ou
essência genérica, que lhes é atribuída por atribuição essencial. Mas diferem
pela existência; assim, não é a mesma a existência do homem e a do cavalo, nem
a de tal homem e a de tal outro. Por onde é necessário que, em todas as coisas
de um mesmo gênero, difira a existência da quididade ou essência. Ora, em Deus
não há tal diferença, como já demonstramos. Portanto, é manifesto que Deus não
pertence especificamente a nenhum gênero.
Donde resulta que não tem
gênero, nem diferenças, nem definição, nem demonstração — salvo pelo efeito;
porque a definição consta de gênero e diferença e é o meio para chegar à
demonstração. — E também é claro que Deus não se inclui em nenhum gênero, como
princípio, por via de redução. Pois, o principio redutível a um gênero não pode
estender-se além desse gênero. Assim, o ponto só é princípio da quantidade
contínua, e a unidade, da discreta. Ora, Deus é o princípio de todos os seres,
como a seguir se demonstrará. Logo, não está contido em nenhum gênero, como em
princípio.
DONDE A RESPOSTA A PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O nome de substância não significa somente o que
subsiste por si, porque o ser em si mesmo não é gênero, como demonstramos. Mas,
significa a essência, à qual convém existir desse modo, i. é, por si mesma; sem
que isso, porém, lhe constitua a essência própria. Por onde, é claro que Deus
não está incluído no gênero da substância.
RESPOSTA À SEGUNDA. — A objeção colhe quanto à medida proporcionada, pois esta
há de, necessariamente, ser homogênea com o que mede. Ora, Deus não é medida
proporcionada a nenhum ser; mas é considerado como medida de todos, porque cada
um existe enquanto dele se aproxima. Fonte: Suma Teológica de São Tomas de Aquino
Você terá a oportunidade de ler mais sobre esta obra todos os DOMINGOS, TERÇAS e QUINTAS-FEIRAS, quando vamos postar mais um artigo desta obra prima de São Tomás de Aquino. Te esperamos no próximo post.
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