Sobre a doutrina sagrada
Questão 1: Do que é e do que
abrange a doutrina sagrada
Para
que fique bem delimitado o nosso intento, cumpre investigar, primeiro, qual
seja a doutrina sagrada, em si mesma, e a que objetos se estende. Sobre este
assunto discutem-se dez artigos:
Art. 6 — Se esta doutrina é
sabedoria.
O
sexto discute-se assim — Parece que esta doutrina não é sabedoria.
1.
Pois nenhuma doutrina que receba de outra os seus princípios, merece o nome de
sabedoria, cabendo ao sábio ordenar e não ser ordenado, como diz Aristóteles.
Ora, esta doutrina recebe de outra os seus princípios, como do sobredito
aparece (a. 2). Logo, não é sabedoria.
2.
Demais — À sabedoria compete provar os princípios das outras ciências, por onde
é chamada cabeça das demais, como se vê no Filósofo. Ora, não justifica esta
doutrina os princípios das outras ciências, nem é, portanto, sabedoria.
3.
Demais — Adquire-se esta doutrina pelo estudo, mas recebemos a sabedoria por
infusão, e, por isso, se conta entre os sete dons do Espírito Santo, como se vê
na Escritura (Is 2,2). Logo, esta doutrina não é sabedoria.
Mas,
em contrário, a Escritura (Dt 4, 6): Porque nisto mostrarei a vossa
sabedoria e inteligência aos povos.
SOLUÇÃO. — De toda a sabedoria humana, é esta doutrina a mais alta, não relativa, mas absolutamente. Pois sendo próprio do sábio ordenar e julgar, e, pela causa mais alta, considerar as inferiores, sábio se chama, em qualquer gênero, quem lhe atende à altíssima causa. Assim, no tocante à construção, o artífice que traça a planta da casa é chamado sábio e arquiteto, em relação aos operários inferiores, que aplainam a madeira e preparam as pedras; donde o dito da Escritura (1 Cor 3,10): Lancei o fundamento como sábio arquiteto.
Também, no que respeita à vida humana em conjunto, é o prudente chamado sábio, enquanto ordena os atos humanos ao fim obrigatório; donde outro dito da Escritura (Pr 10, 23): A sabedoria é, para o homem, prudência. Quem, portanto, considera a causa absoluta mais alta do universo, que é Deus, deve ser chamado sábio por excelência. Pelo que também se define a sabedoria conhecimento das coisas divinas, como se vê em Agostinho.
Ora, o próprio da sagrada doutrina é
considerar a Deus, causa altíssima, não só enquanto cognoscível por meio das
criaturas — o que souberam os filósofos, como diz a Escritura (Rm 1, 19): O que
se pode conhecer de Deus lhes é manifesto — senão também naquilo que só ele de
si mesmo conhece e foi aos outros revelado e comunicado. Por isso, tal doutrina
em sumo grau merece o nome de sabedoria.
DONDE
A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Não recebe a sagrada doutrina os seus
princípios de nenhum saber humano, senão da ciência divina, a qual regula todo
o nosso conhecimento, a título de suprema sabedoria.
RESPOSTA
À SEGUNDA. —
Os princípios das demais ciências ou são por si evidentes, e não podem ser
provados; ou se demonstram noutra ciência por algum motivo natural. Porém, o
conhecimento próprio
desta ciência assenta na revelação, e não em
premissas naturais. Donde, não lhe cabe provar os princípios das outras
ciências, mas só julgá-las; porque tudo o que nelas repugnar à verdade desta,
condena-se, de vez, como falso, segundo o Apóstolo (2 Cor 10, 4-5): Derribando
os conselhos e toda a altura que se levanta contra a ciência de Deus.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Por ser o juízo próprio do sábio, e por haver dois modos de julgar, deve a sabedoria ter dois sentidos. O primeiro modo de julgar é por inclinação: por exemplo, quem tiver bons costumes, por atração da virtude, pode com acerto julgar dos atos que se devem praticar moralmente. Por isto está em Aristóteles: o virtuoso é medida e regra dos atos humanos.
— O segundo modo é pelo
conhecimento: como o instruído na ciência moral poderia julgar dos atos de
virtude, mesmo se a não tivesse. Ora, o primeiro modo de julgar as coisas
divinas pertence à sabedoria enquanto dom do Espírito Santo, segundo a
Escritura (1 Cor 2,15):O espiritual julga todas as coisas; e Dionísio: Hieroteu
é douto, não só por aprender mas, antes, por sentir as coisas divinas. O segundo
modo de julgar é próprio desta doutrina, enquanto se adquire por estudo, embora
sejam os princípios recebidos pela revelação.
Fonte: Suma Teológica de São Tomás de Aquino
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